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segunda-feira, 20 de maio de 2019

Abandono



Mergulhada em denso lamaçal
olhava e via do fundo do fosso
 luz diáfana, distante, virginal... 

Mas não me alcançava
 amparava...acudia
 antes, mostrava-me mais 
claramente minhas chagas. 

Sem socorro, sem amparo 
enterrei-me mais e, 
mais distante 
a distante luz ficou. 

Na treva e lama 
encontrei braços desesperados, como eu...
 abraçaram-me e puxaram-me mais 
para baixo, para o lar dos desditosos, os exilados! 

Aqueles braços, magros
 horrendos, macilentos
 eram mais próximos 
que a brilhante, virginal luz distante...

 Neles encontrei apoio 
socorro das dores, nas 
dores deles. 

E todos nós formamos
 o denso, incomparável, invencível 
exército dos desgraçados,
 que pululam por toda parte...
 Deserdados da luz santificante! 

AbandonoAriadnecomo criar loja

Azrael



Vejo um anjo aproximando-se 
enormes e brilhantes asas
 rosto sereno, olhar distante....
 numa mão traz uma estrela
 noutra uma ceifa.

 Ao Seu redor nuvens
 de almas arrebatadas 
entoam cânticos à Alvorada 
da vida nova que inicia 

Longe, livre desta prisão nojenta 
divirtam-se vermes
 roendo-me os ossos, rompendo-me as fibras 
eu, livre, alcançarei triunfante 
o ignoto, o aguardado! 

Ariadneblog

Ânsia



Teu corpo escultural
 Tua pela alva e macia
 Demonstram os prazeres

 Que aos teus devotos propicia!
 Ah!...se tu soubesses
 A ânsia que me devora o peito

 A sede de seus doces beijos
 Cederia-me, ligeiro, 
Teu olhar faceiro.


 Ariadne

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Procurei



Procurei por ti , flor do dia,
entre as encantadas fontes.
desdobrei-me em agonias,
ao sol dos montes.

Andei por todo lugar,
procurando te encontrar,
flor minha!
mas não sei por que

mal ou desvelo, não soubestes
a que vinhas.
E num repente matreiro,
surgistes.....

a me conquistar,
não nego, a mim foi difícil,
mas aceitarei te amar.
E agora sonho em vão

e continuo a procurar...
quem sabe em teu coração,
o amor, o quanto durará?


Ariadne

terça-feira, 14 de maio de 2019

Segredo



Tenho na alma um segredo
e na vida um quebranto,
Um duradouro amor 
num momento nascido,

é mal sem esperança, e o silêncio tanto
que essa que assim o fez
de nada tem sabido.
Ai de mim! passarei dela despercebido...

junto dela, a seu lado e solitário...entanto
e até o fim viverei sobre a terra ,
em meu canto.
Nada ousando pedir...nada logrando obter...

Ainda que a tenha Deus
doce e terna criado...
por seu gosto ela vai...
distraída ao meu lado...

Presa à austero dever,
que fielmente zela...
ela irá, ao ler meus versos
cheios dela, perguntar :

- Quem é essa afinal ?

Ariadne

No espaço



No espaço que me prende,
vazio mar...solidão,
a luz que não mais se acende,
amor de mim...ilusão!

No espaço que me prende,
quero ouvir tua voz....
quero plantar a semente
quero desatar os nós...

No espaço que me prende,
sou livre, sem liberdade,
sou escravo de um sonho,
sinto de ti saudade.

No espaço que me prende,
estou perto de tudo e nada....
dos lugares que passei,
nesta minha caminhada.

No espaço que me prende,
preso estou por covardia...
não sei se falo de amor,....
e, por amor o que faria?

No espaço que me prende,
não sou nada...nem ninguém...
somente a sombra que vaga...
à procura de um bem.

Ariadne

Esgares de uma vida atormentada



Vento frio e cortante passa por entre as janelas estilhaçadas produzindo silvos agonizantes; atormentada, Christine pensa em como resolver a dívida deixada por seu recentemente falecido pai, as contas, os irmãos mais jovens , o trabalho...tudo a inquietava, mas nada a aterrorizava tanto quanto o credor Alfonsos, sombra negra e implacável, que a perseguia mesmo antes do desenlace paterno. Esgueirando-se pelas sombrias ruelas que circundavam as fábricas e o comércio, Alfonsos, sequioso, desejava a jovem , bela e graciosa Christine...seu olhar flamejante de desejo a constrangia diariamente quando cobrava dívidas que, sabia, não poderiam ser pagas...várias vezes cortejou-a a fim de quitar o débito, mas resoluta recusava-se, preferindo garimpar as sobras deixadas pelos outros ao anoitecer nas frias, nevoentas e apavorantes ruas....diariamente trazia a lenha que aquecia seus irmãozinhos, algumas vestes usadas, e alimentos cedidos por piedosa senhora ...seu salário na fábrica de uniformes mal dava para pagar o aluguel.....exausta , deitada em sua cama improvisada imaginava meios de livrar-se daquele ávaro e grotesco homem lascivo....Ah se minha mãezinha estivesse aqui, ajudaria com suas costuras...de um salto pulou do assoalho que lhe servia de cama e pois-se a procurar a máquina de costuras,....achou também uma roda de fiar antiga e empoeirada....deu pulos de alegria....costuraria o máximo que pudesse e nem ela ou os irmãos passariam fome ou frio, nem teria de se entregar ao asqueroso Alfonsos para saldar dívidas...o faria com os rendimentos das costuras! Um facho de safirina luz penetrou a choupana onde viviam e ela chorou....sentiu o amparo da mãe amorosa e dedicada ao seu lado. Logo rebrilha o Sol, anunciando novo dia de duras atividades na fábrica....ao fim de fatigante expediente, Christine pede ao Supervisor os restos de tecidos que sobraram e este lhes dá....rejubilante, volta para casa e começa seu novo trabalho: costurar! Evitava o desagradável credor e trabalhava com afinco....sem descanço...Numa tarde ensolarada Christine e seus irmãos expõem as peças na praça e logo chamam a atenção das damas...peças únicas, bem acabadas e com fios finissímos acabando as obras, compraram imediatamente todas elas e fizeram encomendas....Christine e seus irmãos não poderiam estar mais felizes....mas, próximo ao mercado a terrivel silueta de Alfonsos enfurecido tramava algo indescritível....foi até a choupana da pequena família e a incendiou, partindo às gargalhadas insandescidas. Ao chegarem...surpresa terrível! Seu único lar destruido, o dono cobrava satisfações e reparação, Christine , com lágrimas de sangue entrega todo o dinheiro conseguido no mercado com a venda das peças. Ah! Deus...que fazer??? recuperaram o que puderam, inclusive as máquinas; mas onde abrigarem-se do frio e dos perigos? Que comer? Onde abrigaria seus pequenos irmãos...caiu ao solo em prantos,vencida pelo cançaço, fome e desespero...entregou-se ao abatimento, era também jovem tinha 15 anos e toda esta labuta interminável....desejou morrer, mas e os irmãos..que seria deles?.....arrastou-se e aprumou-se o quanto pode....o vento soprava fresco e revigorante, balançando seus longos e negros cabelos numa dança surreal; olhos fechados imaginava o terrível Alfonsos tocando sua pele virginal com suas mãos repugnantes...era o único jeito; colocou as mão no rosto em total desespero quando maviosa voz, vinda de perto do lago chamou sua atenção. Levantou-se e seguiu o divinal chamado, até que avistou brilho intenso e sobrenatural....caiu de joelhos, amedrontada pensando nos irmãos que deixara perto do carvalho , manteve a cabeça abaixada em súplicas ao Altíssimo, quando longos e macios dedos acariciaram seu rosto úmido de lágrimas; ousou olhar e viu...viu o rosto luminoso de sua querida mãezinha fitando-a benevolente: "- Não tenha medo,venha comigo!"; ambas caminharam em silencio tumular pela floresta , a cabeça de Christine estava girando, pensava que havia enlouquecido....mas sua mãe lhe respondeu: -Não estas louca, vim socorre-los; mas como?! perdemos tudo...tudo. Mas não sua bondade e talento - retrucou a mãe-....neste instante as folhas das árvores caíram aos montes unindo-se e criando o tecido mais belo e precioso já existente....as aranhas cederam seus poderosos fios e Christine costurou o mais belo vestido já visto, vaga-lumes enfeitaram de luzes a obra que parecia celestial. Agora vá e venda-o ao Marquês, pague as dividas e vá morar com seus irmãos nas terras do norte, onde novas aventuras te esperam, mas nunca deixes de ser quem é e lembrar de onde veio....estou sempre com vocês meus amados tesouros....dito isso ela desapareceu e Christine fez como mandado, ansiosa por conhecer as nova terras e seus segredos.
Correu inflada de esperanças no porvir....imaginava um local seguro e alegre onde viveria com seus irmãos em plena harmonia e paz! Encontrou os pequerruchos dormindo pesadamente, embora com estomagos leves....isto a entristeceu, deveria providenciar algo para a ceia e um abrigo , a noite ia alta e os perigos espreitavam....temia que o culpado pelo incendio retornasse e os encontrasse tão indefesos....pensou e achou melhor esconder o belo vestido dentro do carvalho, num buraco logo acima de sua cabeça. Pronto....agora a comida! Dispos as maquinas de costura à volta de seus irmãos, usou algumas folhas para tapar buracos e cobriu-os com sua manta, ficando exposta as rajadas gélidas do vento noturno inclemente....seu corpo tremia e seus dentes batiam initerruptamente....lágrimas desciam provocadas pelo intenso frio, mas não esmoreceu....cria nas palavras de sua mãe e manteve-se firme....ao longo da pequena estrada de terra que cortava a floresta, Christine encontrou frutas silvestres grandes e sumarentas...colheu-as ansiosa enquanto, faminta, comia algumas....colocou-as em sua saia e preparava-se para pegar alguns gravetos quando um gemido a alarmou....ahhhhiiiii.......silencio....., Christine na espectativa mal podia respirar quando novamente o som terrível se vez ouvir, cortando a noite como navalha!....horrorizada intentou fugir, mas lembrou-se dos irmãos e pensou: Alguém pode estar ferido e se eu não ajudar morrerá.....
Abaixou-se lentamente e colocou as frutas próximas de arbusto coberto de flores brancas, que à luz do luar pareciam diamantes...mais uma vez o gemido seguido por abafado pedido de ajuda!....a voz rouca e pesada lançava aos deuses lanciantes gritos e suplicas dilacerantes.....compungida Christine aproximou-se aos poucos da sombra estendida ao solo, que contorcendo-se lembrava um animal mortalmente ferido...- Olá!....quem és?....a resposta foram apelos chorosos por socorro..."-:.por favor! piedade... estou morrendo...não me abandones...ajude-me...suplico..." com cuidado Christine chega perto o bastante para distinguir a face do agonizante e cai horrorizada e estupefacta!.....não...não podia crer em seus olhos!!!!
jazia ali...inerme Alfonsos cruelmente queimado, suas vestes colavam-se à pele que dolorosamente caia a cada movimento de seu corpo.... mal podia-se reconhece-lo, quase desfigurado pelas queimaduras e pelos esgares da dor....transtornada Christine ficou imóvel por um minuto que pareceram seculos....de repente estava vazia, uma sensação de impotência e incapacidade se apoderou dela....que fazer?...como ajudá-lo....não sei...não sei.....foi ele...oh meu Deus! Ele queimou-se ao destruir com fogo nosso único lar....a avareza e o ódio que cultivava em vida consumia-o agora em labaredas infernais....não posso ajudá-lo, nada tenho para minimizar-lhe o sofrimento.....furtivo e trevoso pensamento surge em sua mente: - Ele merece!!! colhe o que semeou....o mau que praticou o tolheu em sua sanha....que fique abandonado como nós agora estamos por sua causa!!!.....imediatamente afastou estes funestos pensamentos...- Que diria sua mãe se a visse agindo assim....ao mal retribuindo com mal.... não! não se transformaria nele...aproximou-se e suavemente disse: -Alfonsos!....acalme-se...não irei!....ao olhá-la, cobriu o rosto ferido com mãos trêmulas, envergonhado de seu ato, mais ainda de sua condição.....Christine!!!!ah....deixe-me!...não.... suporto.... olhar-te nestes ....últimos minutos que.... me... restam....tossiu dolorosamente, engasgado com suas palavras e seu fel....- Não irei, vou dar-te algo para beber...desculpe o mal jeito....tenho apenas estas frutas a oferecer....ergueu com cuidado a cabeça de Alfonsos e espremeu as frutas...de pouco em pouco em sua boca descarnada....o líquido refrescante balsamisou temporariamente a famigerada sede que sentia, por um instante olhando a doce menina que perseguia voraz, ali ajudando-o apesar de tudo...sentiu paz , ela não o odiava e isto bastava para que, agora, mergulhasse no profundo e negro abismo da morte......perdoe-me Chris...ti..ahhh.....longo e pesado suspiro...sua alma torturada deixava o corpo e mergulhava em profunda agonia e trevas.....nos braços de Christine conhecera a paz e o perdão....sua cabeça pende para o lado no momento do desenlace, ,...comovida, chora Christine em meio aos uivos do vento impiedoso....ergue-se e observa o céu noturno....pensa nos mistérios da vida de todos os homens: nascimento e morte...nascemos sós chorando e morremos sozinhos, mas não solitários e nem chorando...se fizermos as escolhas certas! Guardou estes pensamentos, intuidos por sua guardiã no recesso de seu coração....-farei escolhas certas...já sofri o suficiente nesta pouca vida que vivi....não quero alongá-lo além túmulo....Adeus Alfonsos!!!....que possa ter na morte a paz que não teve em vida! Adeus!!!!

( continua )


Ariadne